Sinceridade e livros.

13:05 Unknown 0 Comments


Aprendeu a ser sincera. Mas não aquela sinceridade que se limita à apenas não dizer mentiras, mas a sinceridade que vai além da pureza. Não se tornou santa, muito menos uma pessoa melhor, porém o alívio que essa sinceridade proporcionava lhe causara o efeito inevitável de desejar a reciprocidade.
Reciprocidade é justamente o substantivo que não combina com o adjetivo sincero. O que esperar do outro que não aprendeu a sinceridade? Aquela que não se limita, logo aviso.

Essa sinceridade é mais do que palavras rasgadas ao outro, é deixar rasgar-se também; sentir a dor de magoar quando poderia facilmente omitir. É, a omissão também entra nesse ciclo de dores, não esconder e não mentir, optar pelo modo difícil, escolher cicatrizes além de flores e no final sentir a felicidade incontestável de ser o que realmente é.

Aprendeu e não recebeu a temida reciprocidade, detalhava seus dias e acontecidos com a veemência de quem reza à Deus. O medo de cada frase que transbordava de seus lábios era nítido, pois poderiam ser fatais, mas falava e falava e falava mesmo com o medo, mesmo com a sensação de haver dias infernais porquê estava sendo o mínimo que poderia ser: ela.

Virou-se e viu um livro novo na cabeceira do outro lado, estava sozinha e ler seria a melhor opção para uma aprendiz de literata, e ao abrir deparou-se com um nome na folha de rosto: Raquel Morais. Um descuido, uma opção, um nome. Três fatores arrasadores à recíproca não verdadeira.

Arrumou as malas, avisou que iria embora com a plenitude que só a decepção ensina, pediu pra esperar enquanto não chegava do trabalho, pediu pra não ir embora, acatou.
Guardou as malas num canto, acendeu um cigarro e escreveu.

Quem sabe um dia todas as suas pseudo-escrituras também estariam na cabeceira de alguém?


Um livro sem espaços em branco para não haver o nome de ninguém.

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